IV - ABORTO


 

Tive uma adolescência normal, na época meu pai ganhava mais dinheiro como comerciante. Eu tinha roupas, tênis de marca, viajava todo ano, tinha os amigos, frequentava um clube e comecei a reparar mais nos garotos. Aquele medo infantil dos homens havia dado lugar ao amor juvenil. Gostava de vários ao mesmo tempo, me relacionava efemeramente. Um mês com um, dois meses com outro... Enjoava deles fácil também. Á medida que sofria com amores não correspondidos, arrumava outros que descartava com a mesma facilidade. Aos 12 tive meu primeiro beijo. Eu tremia, mil borboletas batiam asa no meu estômago. Comecei a namorá-lo em segredo. Era gentil, moreno, alto, 17 anos. Estava concluindo o ensino médio e morava com a avó. No meu aniversário de 13 anos ganhei meu primeiro buquê de rosas. Eram brancas e amarelas, na verdade ele me explicou; disse que pediu ajuda a moça da floricultura que o havia advertido que não poderia dar rosas vermelhas para uma mocinha. Apresentei-o aos meus pais, que não viam problema em namorar dentro de alguns limites. Ele foi meu primeiro amor. Mas aos 13 anos, fui levada inocentemente por um bando de amigas invejosas que pediram para eu terminar com ele, pois estava deixando de aproveitar a vida. O verão estava chegando e a possibilidade de ficar com garotos de fora da cidade me atraiu. Terminei com ele. Terminei com meu primeiro amor. Um rapaz gentil, que nunca ultrapassou limites, que me respeitava e dizia que me amava.

Após nosso término, ele prestou prova para Aprendiz de Marinheiro. Passou e foi morar no Sul do país. Só tive notícias dele anos mais tarde.

Aos 16 tive minha primeira transa. Não posso dizer que tinha perdido a virgindade, pois a minha inocência havido sido levada de mim quando ainda criança. Eu tinha 16, ele 24. Engraçado que ao passar dos anos me relacionava com homens com uma diferença grande de idade. Não sei se era busca por proteção, anos de terapia mais tarde mostrava a culpa dentro de mim e a busca incessante de homens capazes de me proteger dos meus algozes. Esse era mais experiente, tinha um filho. Nunca fora casado. Foi duro convencer meus pais a me deixar namorá-lo. A diferença de idade era grande. As regras eram mais duras, com uma prima mais velha, fui a  um ginecologista para me receitar pílulas. Uma gravidez na adolescência não era um plano meu. Meus pais me davam cada vez menos dinheiro pra sair... então não conseguia comprar minha pílula. Pedi meu namorado, que se negava a comprar. Meses depois enjoei dele também. Não dava mais pra me arriscar transando com um homem que sequer se preocupava com a minha proteção.

Eu fui criada dentro da Igreja Católica, mas não podia dizer que eu era praticante. Ia a algumas Missas para barganhar as idas ao Clube, não comia carne na sexta-feira santa e de vez enquando procurava o padre para me confessar.

Aos 17 fui convidada a fazer um Encontro Jovem. Foi maravilhoso conhecer pessoas, sentir prazer nos encontros para oração. Dentro deste grupo namorei alguns rapazes (bem rápido também) e aos 18 conheci um homem que era dirigente de um dos grupos jovens da Paróquia. Tínhamos uns 5 anos de diferença de idade. Ele era mais velho. Comecei a reparar nele. Na ápoca ele fazia um propósito na quaresma para não namorar ninguém. Não entendi muito bem isso, mas pessoas mais próximas alegavam que ele era muito "namorador" e um dirigente não poderia pular de galho em galho, deveria escolher uma mulher com intenção do matrimônio.

Eu tinha acabado de terminar o ensino médio. Meu pai me convenceu fazer Formação de Professores para ter uma profissão logo. Eu tentava emprego na área, mas estava difícil. Ninguém queria contratar uma professora que tinha acabado de se formar e com zero experiência.

Comecei a namorar o dito cujo na Páscoa (pós quaresma) e ele fez questão de conhecer meus pais. Dizia ser rapaz direito e queria namorar em casa. Com a dificuldade de arrumar trabalho comecei a vender roupas em casa e aos finais de semana vendia frango no açougue do meu pai. Não era lá muita grana, mas ao menos pagava algumas coisinhas de menina. Meu namoro foi ficando sério e com ele um pedido de noivado aos 19 anos. Meus pais acharam o máximo, minha mãe já queria começar a fazer meu enxoval. Eu na verdade não sabia se era isso que eu queria. Minha vida ficou resumida em casa/trabalho/igreja. Eu só tinha amigos da igreja, quando saía era com outros casais da Igreja. Cansada da monotonia que havia se tornado minha vida, prestei vestibular para uma faculdade em Cabo Frio. Sempre tive facilidade com as palavras e escolhi o curso de letras. Junto com a faculdade consegui um estágio numa empresa na cidade. Minha vida agora consistia em casa/trabalho/faculdade e aos domingos eu ia à Igreja. Nunca senti que meu noivo me dava força no trabalho ou nos estudos. Só dizia que eu não tinha mais tempo pra Deus.

Nossa intimidade ficou resumida em pecado. Se abraçar demais, carícias, beijos avassaladores, aconteciam, mas quando acompanhadas de alguma transa, ele me fazia sentir uma culpa horrível. Ia correndo conversar com o padre. Cheia de culpa. Eu pecava e fazia ele pecar também. O padre João além de mentor, virou um amigo. Conversava muito comigo sobre intimidade. E dizia que se o fogo já estava avassalador, já era hora de casar.

Meu noivo começou a comprar fogão, geladeira, itens para a casa. Saiu da padaria onde trabalhava há alguns anos e com a rescisão decidiu tomar conta do negócio do pai que já estava cansado. Era um mini-mercado. Começou a fazer algumas obras, comprar equipamentos novos, ali seria nosso ganha pão. As transas aconteciam mais frequentemente, e o medo também. Católicos são proibidos de usar preservativo ou pílula anticoncepcional. Usava a tabelinha. Mas meus ovários micropolicísticos me pregaram uma peça. Como a menstruação não era regrada, era impossível que a tabelinha desse certo. 

Numa noite, saindo da igreja percebi que ele estava quieto e ao perguntar porque ele estava daquele jeito, me respondeu que precisava muito conversar comigo mas não sabia como. Meu coração começou a acelerar... vai terminar comigo... não... por favor... não! Minha mente trabalhando freneticamente em vários motivos que o levariam a terminar comigo. Ele falou que era um outro homem antigamente, Que não respeitava nem os laços familiares. Que no passado transava com a esposa do seu irmão e que ela ficou grávida. Que o filho mais novo dela, era dele também. Em conversa com a cunhada, falou que não tinha coragem de falar pro irmão e o mesmo o criou como filho sem nunca saber a verdade. Ao dizer as palavras, cada uma entrava como faca no meu coração. Como aquele homem que eu considerava um homem bom, de bem, temente a Deus, fosse capaz de tamanha canalice? Ele disse que para casar com ele eu tinha que aceitar esse passado dele também. Meu Deus, eu era uma jovem de 20 anos, fazendo faculdade, com um estágio promissor e estava prestes a construir uma vida com um homem mal caráter.

Semanas depois da revelação, acordei e estava sangrando muito. Parecia uma hemorragia. Tomei um Ponstan, coloquei um absorvente e fui trabalhar. Lá passei mal e fui orientada pelo meu chefe a procurar o hospital. Na época ainda tinha plano de saúde que meu pai pagava. Fui ao pronto socorro e ao tirar minha calcinha vi que nela não tinha apenas sangue... parecia um, um feto!!! Meu Deus! O que fiz de errado! Meu Deus me ajuda. Rezei todas as orações que eu sabia rezar. O médico pediu para eu ligar para alguém. Eu estava sofrendo um aborto e precisava fazer a curetagem. Liguei pra ele, meu noivo. Ele atendeu o celular, eu estava chorando. Disse que tinha acontecido algo terrível que ele precisava estar lá comigo. E ele respondeu que não tinha como ir porque estava esperando a entrega de uma balança. Uma balança! Eu perdendo nosso filho, correndo risco e ele preocupado com uma balança!!! Falei com o médico que não tinha como avisar a ninguém. Assinei um termo de responsabilidade para fazer o procedimento sem acompanhamento. Liguei pra minha mãe. Disse que do trabalho iria pra faculdade e de lá dormiria na casa de uma colega para terminar um trabalho acadêmico. Minha vida de boa moça na Igreja era uma farsa. Eu estava perdendo meu filho...

Tomei uma anestesia local e a curetagem foi feita. Meio grogue dormi no hospital e fui liberada na manhã do dia seguinte. Eu havia perdido um bebê de 3 semanas, mas fisicamente eu estava bem, mentalmente estava péssima.

Saí do hospital e sentei numa pracinha em frente ao Hospital. A dúvida era: Pra quem vou ligar para me buscar? Eu não tinha dinheiro nem pro táxi e nem pros antibióticos que o médico me receitara. O ódio me dominava quando pensava no meu noivo. Liguei pra um amigo da Igreja que também era um colega de trabalho. Sabia que ele tinha uma quedinha por mim, falei que estava saindo do hospital e precisava de uma carona. Ele prontamente pegou o carro e foi me buscar. Ao vê-lo, não aguentei... chorei nos braços dele. Eu havia perdido um filho que eu nem sabia que esperava e fui rejeitada pelo meu noivo que tinha obrigação moral em estar dividindo aquele momento comigo. Ele foi paciente, me ouviu, me abraçou, enxugou minhas lágrimas, me levou pra almoçar preocupado comigo que já tinha 24 horas que não comia. Me levou pra casa. Em casa disse pra minha mãe que estava passando mal, mas que já tinha ido ao hospital e só precisava descansar. Fiquei dois dias trancada em casa. Não queria ver ninguém. Foi a primeira vez que desejei morrer.

Quando senti que estava pronta para conversar com meu noivo, liguei pra ele. Minha mãe disse que ele tinha ido todos os dias lá em casa atrás de mim, mas eu falava que estava passando mal e não queria vê-lo. Nunca soube o que passou pela cabeça da minha mãe. Marquei com ele na saída da Missa. Que eu o encontraria lá. Ao me ver, chegou chorando, me pedindo perdão. O amigo que me socorrera havia conversado com ele. Eu tirei a aliança e devolvi. Falei que a partir daquele momento não queria vê-lo nunca mais. Que nunca mais me procurasse. E terminamos ali.


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