V - MEU PRIMEIRO EMPREGO
Após o aborto eu fiquei mal. Me afastei de todos os amigos, queria construir uma vida nova. O meu cavaleiro de armadura dourada que me socorrera no dia fatídico me enviou flores. Me pedia para namorar. Saí com ele algumas vezes. Ele era um homem bom. Mas eu estava ferida demais para deixar entrar qualquer pessoa na minha vida naquele momento. Ele falava em namoro, casamento. Meu coração ainda tentava recolher todos os cacos que minha vida tinha tornado.
Busquei ajuda na terapia. Através dela comecei a cuidar dos meus medos, culpas e tratar as feridas. Consegui através do estágio meu primeiro emprego. Era na cidade vizinha. Ótimo eu sairia de casa para trabalhar, de lá ia pra faculdade e só voltaria pra casa para dormir. Vida perfeita. Longe de todos daquela cidade.
Meu relacionamento em casa ficou pior. Minha família não entendia porque eu tinha terminado com meu noivado e deixado escapar um homem tão bom. Eu não tinha coragem de dizer. Nem o covarde que foi várias vezes na minha casa conversar com minha mãe para me persuadir a reatar o noivado. Minha mãe me falava que eu não prestava. Que deixei escapar um homem bom, e que agora eu só queria farra.
Comecei a ficar cada vez menos em casa. Comecei a fazer amizades no trabalho e me afundava cada vez mais no álcool. Eram muitas festas e a faculdade passou a não fazer muito sentido para mim. Eu sabia que era bonita e atraía olhares. Ficava com homens solteiros, casados e homens muito, mas muito mais velhos que eu. Começou meu período de autodestruição. Aos vinte e um anos me relacionei com um homem de quarenta. Ele era engenheiro da empresa e eu achava que ele poderia me possibilitar viagens, restaurantes e festas caras que eu não poderia bancar. Ele era viciado em cocaína, era divorciado e havia voltado a morar com a mãe após a separação. A mãe dele me adorava, mas ele mal tinha dinheiro pra me levar pra sair, porque quase todo o dinheiro dele era gasto no vício da droga. Eu nunca curti pó. Ele nunca cheirou na minha frente, mas um certo dia me levou para uma festa de maluco no Peró. Festa estranha com gente esquisita. Era um local afastado que não tinha como sair dali de ônibus. Somente de carro e eu tinha ido com ele. Nunca tinha visto uma festa como aquela. Bandejas de cocaína e dinheiro em canudo rodavam de mão em mão. Meu namorado cheirou a noite toda. O máximo que fiz foi tomar umas cervejas e fumar um cigarro de maconha.
A hora avançava e ele estava cada vez mais drogado. Lá pelas duas da madrugada cismou que um cara olhava pra mim e que eu estava dando mole. E digo, eu não conhecia ninguém e não conseguia me enturmar. Ele foi embora e me deixou na festa sozinha. Sozinha na festa. Não tinha como pegar ônibus, não tinha ninguém conhecido na festa para me dar uma carona e não tinha dinheiro pro taxi. Sentei numa cadeira no canto e comecei a chorar. Como assim me traz numa festa e me deixa sozinha? Chorei, até um rapaz perceber. Veio falar comigo. Ele conhecia o Luiz, meu namorado. e disse que ele na nóia via coisas que não existiam. O rapaz falou pra mim que tinha que reabastecer a festa. Que ele ia sair e me dava uma carona pra casa.
Eu sai de lá com o traficante da festa. Tava tudo caminhando pra dar errado. Ele tinha uma caminhonete. Entrei, saímos da festa e ele entrou numa favela. Pediu para eu esperar no carro enquanto ele pegava umas "coisas" pra festa. Eu estava num carrão numa favela que não tinha a menor idéia como sair, e parada em frente a uma boca de fumo. Eu pensava só no pior. Foram os três minutos mais longos da minha vida.
O homem saiu da casa com uma sacola, entrou no carro, colocou a sacola no porta-luvas e disse que agora ia levar a princesa pra casa.
No caminho da minha casa, passávamos por uma patrulha da polícia rodoviária e eu imaginava o risco que estava correndo ao passar por ali com um homem que eu não conhecia, cheio de drogas no porta-luvas do carro. Meu anjo da guarda deve ter dado sonífero aos policiais, porque na hora que passamos em frente a patrulha, eles estavam dormindo dentro da viatura.
Vendo meu nervosismo, meu salvador falou: "Você acha que eu dou mole? Esses caras são tudo parças meu.". Assim, me deixou na porta de casa, me deu um beijo no rosto e falou pra não sair mais com viciados. Tomei aquele conselho do traficante pro resto da minha vida. Prometi pra mim mesma, que nunca mais passaria de novo por um perrengue daqueles.

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