VI - VIDA ADULTA


 

Após aquele dia resolvi mudar. Minha psicóloga me deu alta. Não via mais resquícios da minha depressão e autodestruição. Não dava para me envolver mais com homens problemáticos. Saí daquele trabalho e fui convidada pra ser secretária de uma empresa. Tranquei a faculdade. Letras era um curso que não fazia mais sentido pra mim. Me matriculei num curso Técnico de Informática, a informática era um diferencial para entrada em grandes empresas e fiz o pós médio em um ano.

Após o Curso técnico, resolvi abrir meu próprio negócio. Um curso de informática. Meu pai estava abrindo falência do Açougue. Estava transformando metade da loja em um bar  e poderia ceder a outra parte para algumas obras e montar o Curso. Eu precisava de investidores. Pessoas com formação e com dinheiro pra entrar comigo no negócio. Eu precisava fazer obras na sala, comprar móveis, computadores, precisava montar apostilas e alavancar o negócio.
Comecei de paquera com um cara. Ele era deficiente. Não tinha um braço. Nunca pensei em me envolver com um homem com necessidades especiais. Perdeu um braço num acidente de trabalho, era bonito, inteligente, militante da ala petista, concursado na prefeitura, sem vícios. Parecia um bom pretendente.
Namoramos por 2 anos, ele foi meu principal sócio no Curso de Informática. Os outros sócios eram minha cunhada, casada com meu irmão e minha irmã que estava sem trabalhar. Começamos o curso com 3 computadores: um meu, outro da minha cunhada e outro que meu namorado comprou. Mesmo com mobilidade reduzida, ele tirou férias do trabalho e pessoalmente fez a obra na loja. Colocou forro, piso, pintou e colocou baias. Aquele ato me atraiu... eu com dois braços não fazia o que aquele homem de um braço só fazia.
Ele era carinhoso, fazia minhas vontades, mas tinha uma coisa que eu detestava nele... era extremamente carente. Foi criado pelas irmãs após a separação dos pais. Os mesmos moravam em Natal - RN e ele ainda criança veio morar em Arraial com a irmã mais velha que estava prestes a se casar. Eu entendia aquela carência, mas não curtia. Ele era esforçado. Me convenceu a fazer um novo vestibular. Fiz pra Informática, ele pra Administração. O que eu ganhava mal dava pra pagar a faculdade, mas ele sempre me ajudava.
Durante dois anos o Curso de Informática era um sucesso na cidade, tínhamos valores acessíveis e uma lista de espera de jovens e adultos querendo fazer o curso.
Meu namorado na época viu que a cidade de Búzios estava abrindo concurso e me chamou pra fazer. Ele disse que se passássemos no Concurso poderíamos no casar. Meu pai havia dado um terreno pra gente construir nossa casa.
Fizemos a inscrição, estudamos durante meses. Fizemos a prova. Eu passei, ele não. Logo fui chamada pra tomar posse do cargo. Comecei a trabalhar na Prefeitura de Búzios, deixei o Curso de Informática para minha irmã e minha cunhada administrarem durante a semana. As duas deram um jeito de tirar meu namorado da sociedade. Eu trabalhava em Búzios, estudava em Silva Jardim e aos sábados dava aula no Curso de Informática.
Minha vida virou de cabeça pra baixo. Não tinha tempo pra nada, o curso da faculdade era puxado e caro e quase todo o dinheiro que eu ganhava ia pra ele. Minha vida work a holic foi me desligando do meu namorado. Conheci homens interessantes na faculdade, e outros fora dela. Terminei o namoro. Não gostava mais dele. Me envolvi com outros homens depois. Eu frequentava um barzinho aos sábados a noite. Era o único dia pra sair com as amigas. Nesse bar conheci um rapaz negro. Era músico que de vez enquando dava uma palhinha na voz e violão. Descobri que ele trabalhava numa operadora de mergulho e começamos a nos pegar. Era mais sexo do que sentimento. Ele pediu para namorar. Fui namorando sem querer levá-lo para minha casa. Não queria mais apresentar mais ninguém aos meus pais. Sempre me atribuíam a culpa pelo término dos meus relacionamentos. eu tava curtindo... Só queria curtir.




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