III - UMA INFANCIA INTERROMPIDA PELO ABUSO

 

ALERTA DE GATILHO - Caso você esteja ou conhece alguém que está sofrendo abuso, disque 100.

Abusos infantis normalmente não são facilmente descobertos. Porque na inocência de uma criança, é difícil saber o que é certo ou errado. Ainda mais quando os abusos são cometidos por pessoas dentro da família ou por amigos próximos. Pessoas que deveriam protegê-la. Os abusos são iniciados como brincadeiras, a criança não sabe que está sendo abusada. Em outros casos, quando a criança tem conhecimento do que é errado e tenta se desvencilhar, essa criança é ameaçada. Outras vezes a criança é desacreditada. No meu caso, quando tive coragem de gritar, disseram que eu estava imaginando ou sonhando. É comum ouvir que as crianças tem imaginação fértil... Mas acreditem. Quando a criança diz que alguém tocou nela de forma indevida, acredite! Comece a desconfiar quando a criança não quer estar na companhia de algum adulto. Por favor tenham essa sensibilidade.

Meu terceiro abusador eu lembro bem... Era um pintor que fazia um serviço na minha casa. Na casa estavam minha mãe, eu e minha irmã caçula. Eu chamei atenção da minha mãe quando vi aquele homem com um short largo em cima da escada, colocando as partes íntimas dele para fora do short. Eu sabia que aquilo era errado. Não sabia se ele queria chamar atenção da minha mãe, mas quando mostrei a ela, ela fez um sinal com o dedo indicador sobre a boca, pedindo para eu ficar em silêncio. Nunca soube explicar essas atitudes da minha mãe. Eu como mãe hoje tento estar no lugar dela e entender porque ela nunca agiu contra meus abusadores. Até hoje continuo sem entender. 

É estarrecedor que mesmo após quarenta anos, algumas imagens são bem vívidas na minha mente. Lembro de muitos detalhes de cada abuso. Já li sobre casos em que a mente bloqueia alguns traumas. Mas eu lembro de cada um. E quando lembro, uma parte de mim ainda sangra.

Minha mãe no dia da pintura da casa estava fazendo o almoço e eu e minha irmãzinha brincando no quintal de casa. Me lembro que tinha umas caixas vazias na varanda que pegamos para brincar. Fingíamos que eram elevadores e ficávamos dentro da caixa até "descer no andar correto". Quando o homem nos viu brincando, fingiu brincar com a gente. A caixa tinha um buraco na frente que fingíamos que era o botão pra subir e descer. Aquele homem asqueroso falou pra gente: "Vou colocar um negócio aqui, mas vocês não podem falar com ninguém. Podem fazer o que quiser com ele..." e naquele momento ele colocou o pênis dele naquele buraco. Já tinha visto um daqueles. Sempre fui criada com pudores. Meu pai tomava banho e se trocava trancado, não permitia nem que meu irmão mais velho ficasse sem roupas na nossa frente. Mas eu sabia o que era, porque já tinha passado por aquilo. Peguei na mão da minha irmã e saí correndo pra dentro de casa. Não voltamos mais lá fora pra brincar. Não sei se minha mãe percebeu e contou ao meu pai. Quando meu pai chegou naquela tarde, foi conversar com ele sobre o serviço que ainda tinha que fazer e depois daquele dia ele nunca mais voltou.

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